A My Vintage Dress, loja de vestidos de noiva localizada no bairro de Pinheiros, em São Paulo, virou alvo de polêmicas e protestos após as noivas acusarem o estabelecimento de ter fechado as portas e deixado de responder os canais de comunicação – inclusive nos casos em que o casamento é nos próximos dias.
Os boatos de que a loja, conhecida por oferecer modelos exclusivos e por atender pessoas conhecidas na mídia, estaria com problemas, começaram na segunda-feira (31/8). Diversas noivas e noivos, após não conseguirem contatar a loja, foram até o estabelecimento presencialmente e encontraram as portas fechadas.
A usuária do TikTok Giulia (@giuliavazri) compartilhou um vídeo em prantos contando que ela se casa em 9 de outubro e que seu noivo foi até a loja para tentar pegar o vestido. “Ele falou que tá lotado de noiva raivosa e carro de polícia. Confirmei com uma funcionária que eu tinha pego o celular na última prova e ela disse ter sido demitida hoje de manhã”, relata.
Pouco tempo depois da primeira postagem, que alcançou 731,4 mil visualizações e 984 comentários, Giulia atualizou a rede informando que o noivo estaria na loja já há quatro horas. Nos comentários, outras noivas que também se casarão nesta ou nas próximas semanas compartilharam do sentimento da jovem.
Algumas noivas que conseguiram pegar o vestido escolhido aconselharam as outras a fazer o mesmo para ao menos garantir a peça. “Optamos por pegar nossos vestidos como estavam. Fomos passando os nossos modelos e eles nos entregavam. Se ainda tiver essa opção, faça isso”, afirmou.
Mas os problemas de comunicação e entrega com as clientes já estariam acontecendo há algumas semanas, segundo os relatos. A usuária do X Thais Brazil (@thais_brazil) relatou ter desistido do seu vestido escolhido na My Vintage Dress, para o casamento que acontecerá em 6 de setembro, na última semana, após quase um ano de problemas envolvendo descaso nas provas e falta de respostas da loja.
O vestido que ela teria escolhido em setembro de 2025, e que teria custado R$ 12.950 pelo primeiro aluguel e lavagem, não existia no catálogo e, segundo Brazil, à cada prova a loja mostrava uma versão diferente da original.
“A dona da loja me falou que cuidaria pessoalmente do meu vestido e que faria as alterações. Sumiu! Mandei mensagem falando que não havia dormido e que eu aceitaria do jeito que estava. Ela me disse que faria as mudanças”, conta. A prova, que seria na sexta-feira, foi mudada para domingo pela proprietária da loja. Brazil, no entanto, preferiu cancelar e fechou com outra loja por não ter mais “condições emocionais de seguir com eles”.
O pronunciamento da My Vintage Dress só aconteceu na manhã desta terça-feira (1/9) por meio de um story no Instagram, em que a marca afirma estar “enfrentando um problema importante em sua operação de produção, que impactou parte dos atendimentos e cronogramas em andamento”.
A loja ainda garante que sua prioridade é atender as noivas que irão casar nos próximos dias e semanas, e que eles estão avaliando cada caso “individualmente de acordo com a urgência de cada data”.
“Todas as clientes com processos em andamentos serão procuradas individualmente e estamos trabalhando para organizar cada situação com o máximo de responsabilidade e cuidado possível neste momento”, afirma. Informações sobre demissão de funcionários e costureiras que estariam ajudando as noivas não foram confirmadas pela loja.
PEGN entrou em contato com a My Vintage Dress mas não teve retorno. O espaço segue aberto.
Todas as publicações no Instagram da marca estão com os comentários bloqueados, exceto nas postagens em colaboração com outras pessoas, como é o caso com a ex-BBB, ginecologista e criadora de conteúdo Marcela McGowan.
McGowan e a cantora Luiza Martins se casaram em maio deste ano e usaram vestidos da My Vintage Dress. Em um post da loja com a influenciadora feito há nove semanas, um comentário feito há uma semana também indicava problemas nas entregas dos vestidos. A usuária Thais Maia (@thaismaiasjc) relatou ter assinado contrato com a loja em maio de 2026 e descoberto, no final de agosto, que “eles não conseguiriam me entregar. Meu vestido não está pronto, nem das minhas daminhas”, conta. Ela diz ainda que irá se casar em duas semanas.
O que o cliente pode fazer nessas situações?
Para Daniel Giroto, sócio responsável pela área do Consumidor, do Gomes Altimari Advogados, quando o estabelecimento recebe pelo serviço e não entrega o produto pelo qual foi contratado, há descumprimento do Código de Defesa do Consumidor (CDC).
“Nos termos dos artigos 30 e 35 do Código de Defesa do Consumidor, a oferta vincula o fornecedor, e o consumidor pode exigir o cumprimento da obrigação, aceitar produto ou serviço equivalente ou optar pela restituição dos valores pagos, sem prejuízo de eventuais perdas e danos”, explica.
Em situações em que o produto envolve um prazo muito específico – como o vestido de noiva e a data do casamento, que não pode ser marcada – Bruno Medeiros Durão, advogado especialista em Direito do Consumidor e fundador da DAP Advocacia afirma que a cliente deve guardar todos os comprovantes se precisar procurar por outro vestido e ele for mais caro do que o anterior. Esse prejuízo extra, segundo ele, também pode ser ressarcido “desde que demonstrado o vínculo com a falha do fornecedor”.
Se a loja não conseguir cumprir o combinado, o especialista explica que a cliente ainda pode avaliar se ela pode pedir por indenização por danos materiais e morais, que serão analisados judicialmente para entender a gravidade da situação e as consequências causadas pela loja.
A dica do advogado, independente do produto que se compre, é sempre guardar os comprovantes de pagamento, conversas, recibos e qualquer documento que demonstre o que foi contratado. “Se não houver solução diretamente com a empresa, é possível procurar os órgãos de defesa do consumidor e, se necessário, o Judiciário”.
Quem são as donas da My Vintage Dress?
A loja foi criada em 2012 pelas estilistas Camila Rossi e Vanessa Corraini, inicialmente como um ponto de curadoria e revenda e de aluguel de vestidos de noiva usados de marcas internacionais e nacionais. Com o tempo, a dupla passou a desenvolver modelos exclusivos feitos sob medida que fizeram tanto sucesso a ponto de deixarem de lado as peças terceirizadas.
Em entrevista a Vogue Brasil em 2024, Rossi e Corraini contaram como, desde o aluguel e venda de vestidos de outras marcas, peças com trabalhos manuais cuidadosos, como bordados e rendas, sempre foram o estilo defendido da marca. É essa característica que ainda atraía o público 14 anos depois da criação da loja, com vestidos que misturam estilo boho e folk com diferentes tipos de bordados, franjas e rendas.
A responsabilidade ambiental também foi defendida como um dos pilares da My Vintage Dress, com as estilistas explicando que elas oferecem diferentes tipos de compra e aluguel dos vestidos para as noivas para que os modelos tenham mais vida útil e não necessariamente sejam usados somente uma vez.
“Tudo é passível de reaproveitamento. Convido qualquer pessoa a abrir o lixo do nosso ateliê e tentar encontrar uma renda. Usamos os retalhos em kimonos, na roupa das daminhas, dos pets e em todos os nossos acessórios de cabelo”, comentou Corraini à revista ao falar sobre a reutilização dos materiais na produção dos vestidos.





