Curiosidade, vocação e visão de futuro. Para Christopher Freeman, CEO do Grupo Granado, esse combo de atributos é decisivo para um gestor que deseja transformar uma marca centenária em uma multinacional de reconhecimento global – foi o que aconteceu com ele. Contratado pela família Granado para vender a fabricante e varejista brasileira de cosméticos e perfumaria nos anos 1990, acabou se apaixonando pela empresa e sendo ele mesmo o comprador. Lá, conseguiu profissionalizar a gestão, expandiu a oferta de produtos e renovou o negócio.
“Sou um pouco curioso, gosto de novos desafios”, relata o executivo britânico para Stela Campos, editora de Carreira do Valor, e Thiago Barbosa, gerente de produtos digitais da CBN, no podcast “CBN Professional”. “Vi que havia ali um potencial enorme e isso fez com que eu me apaixonasse pela companhia.”
A Granado foi fundada no Rio de Janeiro em 1870 e chegou a receber o título de farmácia oficial da Família Imperial Brasileira. Em 1903, lançou o Polvilho Antisséptico, produto mais antigo e conhecido do portfólio, que teve o registro aprovado pelo médico, cientista e sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917). Depois de três gerações na família Granado, a marca foi comprada por Freeman em 1994. Mas, bem antes disso, ele iria conhecer o Brasil pelas “coincidências da vida”.
Nascido em Newcastle, no norte da Inglaterra, o executivo começou a carreira como auditor na consultoria Deloitte no país natal. Foi transferido para a França e acabou contratado pelo BankBoston. “Estava na área administrativa e financeira do grupo que, na época tinha uma grande operação no Brasil”, conta. “Um dia, me falaram que eu precisava ir para São Paulo, por um mês, para resolver alguns problemas. Fiquei quatro anos e encontrei aqui minha mulher, que é paulista.”
No banco, a carreira deslanchou. Mudou-se para a área comercial, voltou para os Estados Unidos e passou a atuar com empréstimos e análise de crédito. Logo depois, nova transferência para Londres, onde ficou por sete anos e ocupou a vice-presidência responsável pela área de leasing e “asset-based finance” (financiamento baseado em ativos, como imóveis e equipamentos).
Nos anos 1980, recebeu uma proposta para ser representante no Brasil de um banco francês de pequeno porte, o Worms. “Fiquei cinco anos no Rio, mas em 1993 eles fecharam a operação. Decidi ficar e trabalhar por conta própria”, diz o executivo, que na época se dedicou ao mercado de privatizações. “Um dia, um amigo francês me falou: ‘Olha, conheço um advogado de uma empresa chamada Granado. O dono quer vendê-la, você quer assumir a negociação?’”.
Freeman conta que foi analisar a companhia para preparar a venda. “Havia uma farmácia e uma fábrica antiga, mas tudo era muito ‘caído’”, admite. “Estavam sem investimentos há anos, a contabilidade era manual e não havia computador na empresa.”
Ele lembra que repassou para o então gestor Carlos Granado, neto do fundador, que havia interessados em comprar apenas partes do negócio, mas o dirigente respondeu: “não – é tudo ou nada”. “Retruquei: ‘você venderia a empresa para mim?’ e, para a minha surpresa, ele disse ‘sim’”, conta. “Deu três meses para que eu conseguisse o financiamento e comprei a Granado no dia 17 de junho de 1994, 14 dias antes da chegada do Plano Real”. O Plano Real foi um programa econômico implementado no Brasil em 1994, com o objetivo de conter a hiperinflação, que chegava a 70% ao mês.
Fazer uma coisa que você não gosta é horrível. Eu nunca poderia vender produtos que eu não gostasse” — Christopher Freeman
Mesmo sendo um estrangeiro, diante de altos números de inflação e do rebuscado funcionamento do sistema tributário brasileiro, Freeman garante que não se intimidou. “A transição [para o comando do negócio] foi estranha no início porque eles tinham uma maneira de trabalhar um pouco antiquada”, resume. “Mas fiz um plano de investimentos na empresa, que tinha cerca de 400 funcionários [hoje são 2,5 mil], e contratei profissionais para a área financeira e de marketing.”
Freeman diz que a expansão da companhia nunca mais parou. “Sempre quis criar uma multinacional brasileira”, defende. “Olhando grandes corporações de bens de consumo, como Johnson & Johnson e Procter & Gamble [P&G], vi que se a gente quisesse chegar ‘lá’, precisaríamos de produtos inovadores e de qualidade. Copiar uma coisa que já existe não é bom.”
Hoje, a Granado, além da loja virtual e da fábrica em Japeri (RJ), tem unidades próprias no Brasil e em países como Lituânia, Grécia, França, Portugal, Itália, Reino Unido e Estados Unidos. “Estamos abrindo novos endereços em Madri, na Espanha, e Chicago [EUA]”, completa o gestor, que acredita que tudo o que fez antes de virar CEO o ajudou a guiar o conglomerado que agora reúne três marcas – Granado, Phebo (incorporada em 2004) e Care (2025).
“Como comecei a carreira auditando multinacionais, aprendi sobre análise financeira e entendi como as empresas funcionam”, avalia. “Depois, no segmento bancário, trabalhei com projetos de longo prazo, financiando aviões, máquinas e equipamentos, o que garante lidar com projeções e depreciação de bens.”
A visão de futuro não sai do radar do executivo, que já pensa em um plano de sucessão. No início dos anos 2000, convenceu a filha, Sissi Freeman, a se juntar à empreitada. “Sempre gostou de moda e fragrâncias”, diz ele, sobre a atual diretora de marketing e vendas, formada em ciências políticas e economia pela Universidade de Georgetown (EUA). “Na verdade, ela chegou pensando em ficar apenas dois ou três anos e está comigo há mais de vinte.”
Para Freeman, a jornada à frente da Granado não teria valor se lhe faltasse vocação para enfrentar o dia a dia de trabalho. “Fazer uma coisa que você não gosta é horrível”, ensina. “Eu nunca poderia vender produtos de que eu não gostasse.”
No episódio completo do podcast, disponível no site da CBN, nos streamings Spotify e Apple Podcasts e nos canais do YouTube do Valor e da CBN, o CEO também fala sobre a compra da Phebo, o que faz para envolver os perfumistas no desenvolvimento de novas fragrâncias e por que vendeu uma participação de 35% do negócio, em 2016, ao grupo espanhol Puig, dono de marcas como Carolina Herrera e Paco Rabanne.






