Ficar sem caixa, dever mais do que se tem e dispor de baixa cobertura de juros são os sinais mais associados aos pedidos de recuperação judicial entre empresas listadas na B3, enquanto o tamanho da dívida, isoladamente, tem pouca capacidade de explicar quais companhias entrarão em reestruturação. A conclusão é de um levantamento do RGF-Bizdoc.
Resultado de uma parceria entre consultorias, o monitor analisou dados financeiros das companhias abertas no segundo trimestre de 2026 e comparou os indicadores com casos de recuperação judicial, recuperação extrajudicial e falência. Em síntese, setores mais pressionados tendem a registrar mais eventos de reestruturação financeira, embora a relação não seja necessariamente de causalidade.
Para Claudio Damasceno, sócio da RGF Consultoria, dentre os principais sinais de pressão identificados, a cobertura de juros é o que “decide o jogo”. O indicador mede a capacidade de o resultado operacional pagar as despesas financeiras.
“A empresa pode estar começando a ficar com patrimônio líquido negativo [passivo maior que a soma dos ativos], pode estar com problema de liquidez em determinado momento, mas se ela sistematicamente não gera resultado operacional para cobrir os seus juros, isso leva à recuperação inexoravelmente”, afirma Damasceno.
Em um estudo separado, a Strategy&, consultoria de estratégia da PwC, analisou os resultados do segundo trimestre de 292 companhias abertas não financeiras e identificou que quase metade apresenta sinais simultâneos de fragilidade financeira, dentre eles: cobertura de juros insuficiente, alavancagem excessiva, patrimônio líquido negativo, dívida de curto prazo superior à liquidez, fluxo de caixa operacional negativo e prejuízo operacional. Do universo observado, 60,3% das empresas apresentavam cobertura de juros inferior a 1,5 vez no segundo trimestre, enquanto 43,4% das companhias acumulavam dois ou mais pontos de pressão.
Luciano Castro, líder da prática de transformação da Strategy&, comenta que os casos recentes de varejistas em recuperação judicial voltaram a direcionar a atenção do mercado para o setor, mas o problema está mais difundido do que parece.
“O varejo é a face mais visível dessa pressão, mas está longe de ser a única. Uma parcela relevante das companhias abertas brasileiras já acumula mais de um sinal de fragilidade financeira, e a incidência, em alguns indicadores, é inclusive maior fora do varejo”, diz.
Pelo levantamento da Strategy&, transporte e logística chama a atenção pela baixa cobertura de juros. Cerca de 83% das companhias do segmento apresentaram índice inferior a 1,5 vez. Já no setor de energia elétrica, quase 70% registraram alavancagem superior a três vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Na construção civil, quase metade das empresas possuía dívida de curto prazo superior aos recursos disponíveis e apresentava geração operacional de caixa negativa.
Os números para esses setores são semelhantes aos encontrados pela consultoria RGF, que identificou sinais semelhantes de pressão.
Apesar da alavancagem elevada, o setor elétrico aparece entre os que menos registram recuperações judiciais, considerando o universo de empresas de capital aberto. De acordo com o estudo da RGF, apenas 3% das companhias do segmento estavam em recuperação ou falência na data do levantamento. Entre construtoras, 7% das companhias do setor estavam em processos semelhantes. Já em transporte e logística, no segundo trimestre, apenas 9% das empresas estavam em recuperação judicial, extrajudicial ou processo de falência.
Segundo o sócio da RGF Consultoria, a relativa margem que esses setores têm para operar pressionados é explicada pelos perfis de grande volume de investimento.
“Muitas dessas companhias têm como acionistas fundos de investimento e grupos financeiros com capacidade de aportar recursos adicionais em momentos de dificuldade”, explica Damasceno, acrescentando que esse raciocínio é aplicado principalmente para o setor elétrico.
Após varejo, química e petroquímica, serviços médicos e agronegócio têm maior incidência de reestruturações
Setores intensivos em capital costumam operar com níveis mais elevados de endividamento, porque exigem grandes investimentos iniciais e geram retorno ao longo de muitos anos. Como possuem receitas mais previsíveis e acesso mais fácil a financiamento, conseguem conviver por mais tempo com alta alavancagem sem necessariamente caminhar para uma recuperação judicial.
Por isso, o setor de energia elétrica, o mais endividado, quase não pede recuperação judicial, enquanto o comércio varejista, que depende de vendas estáveis, lidera o levantamento da RGF-Bizdoc com 28% das companhias abertas (5 de 18, quase 28%) em processos de reestruturação. Logo após o varejo, os setores de química e petroquímica (20%), serviços médicos (18%) e agronegócio (18%) aparecem entre aqueles com maior incidência de pedidos de recuperação ou falência.
“O varejo não tem patrimônio. Geralmente, é uma operação que tem pouco volume de capital próprio investido em equipamento, em imóvel, em maquinário”, comenta Claudio Damasceno. “Empresas do setor detêm poucos ativos físicos relevantes para servir de colchão financeiro em momentos de crise, dependendo mais da capacidade de continuar vendendo para gerar caixa”.
A perspectiva para as varejistas também não é boa. Luiz Guanais, analista do BTG Pactual, acredita que o cenário deve permanecer bastante semelhante ao observado na primeira metade do ano.
“No primeiro semestre, vimos uma combinação de elevada alavancagem das famílias, menor disponibilidade de crédito e juros ainda altos, que continuaram pressionando a renda disponível e o poder de compra do consumidor. Para os próximos dois trimestres, não enxergamos uma mudança relevante nessa dinâmica. O consumo discricionário deve seguir em ritmo morno, com crescimento relativamente parecido ao observado nos últimos trimestres”, opina Guanais.
Olhando para 2027, o analista defende que a trajetória dependerá principalmente da velocidade e da magnitude do ciclo de queda dos juros. “Mesmo com uma eventual melhora das condições financeiras, esperamos que a desalavancagem das famílias seja gradual”, comenta. Segundo o especialista, uma parcela relevante de qualquer recuperação da renda disponível provavelmente será direcionada inicialmente para redução do endividamento, e não para aumento do consumo.
Na visão de Castro, da Strategy&, a queda dos juros ajuda e “compra tempo”, mas não conserta sozinha o balanço. “As dívidas vencem e são refinanciadas em momentos diferentes, parte do estoque continua refletindo condições contratadas anteriormente e, principalmente, o caixa consumido ao longo de vários trimestres precisa ser reconstruído operacionalmente.”
Para o executivo, reduzir o custo da dívida não substitui recuperar margem, caixa, liquidez e disciplina de capital.






