A Copa do Mundo de 2026 está sendo marcada por uma mudança silenciosa, mas profunda, na forma como o futebol é conduzido dentro de campo. A orientação da FIFA para que os árbitros interrompam menos as partidas e privilegiem a continuidade do jogo vem produzindo partidas mais rápidas, mais intensas e com maior número de gols.
Mas essa nova filosofia também levanta uma questão que vai além da arbitragem: até que ponto a busca por um espetáculo mais dinâmico pode aumentar os riscos à saúde dos atletas?
Segundo reportagem publicada pela Reuters, a FIFA orientou seus árbitros a evitarem a marcação de faltas de menor intensidade, permitindo que o jogo flua com menos interrupções. A consequência imediata foi uma redução no número médio de faltas e cartões amarelos, acompanhada por um aumento no tempo de bola em jogo e na média de gols da competição, que atingiu 2,95 por partida, a maior da era moderna das Copas do Mundo.
Os dados analisados pelo centro de pesquisa NetSI Sport mostram que o número médio de faltas caiu de 27,7 por jogo em 2022 para 24,3 nesta edição, enquanto os cartões amarelos também diminuíram. Em contrapartida, os cartões vermelhos aumentaram, indicando que os árbitros têm tolerado mais o contato físico leve, mas continuam punindo com rigor infrações graves.
Um jogo cada vez mais exigente
A reportagem da Reuters ouviu especialistas em preparação física, ciência do esporte e arbitragem que apontam outro efeito dessa filosofia: o aumento da exigência física sobre os atletas.
De acordo com Chris West, preparador físico da Universidade de Connecticut, a distância total percorrida pelos jogadores permanece semelhante à de Copas anteriores. O que mudou foi a intensidade.
Hoje, os atletas realizam muito mais corridas em alta velocidade, acelerações e mudanças bruscas de direção, tanto no ataque quanto na pressão imediata após a perda da posse de bola. Esse padrão aumenta significativamente a carga sobre grupos musculares como panturrilhas e posteriores da coxa, especialmente em jogadores que retornam de lesão ou ainda não atingiram sua melhor condição física.
Não por acaso, nomes como Neymar, Raphinha, Christian Pulisic e Reece James convivem com problemas musculares durante a competição, situação mencionada na reportagem da Reuters como um dos reflexos possíveis desse futebol cada vez mais intenso.
O dever de cuidado da FIFA
A discussão ultrapassa o aspecto técnico da arbitragem.
Quando a entidade organizadora altera deliberadamente a forma como o jogo é conduzido, buscando aumentar sua fluidez e intensidade, surge uma questão típica do Direito Desportivo e da governança esportiva: qual é o dever de cuidado da FIFA em relação à saúde dos atletas?
O princípio do dever de proteção (duty of care) vem ganhando espaço no esporte internacional e exige que organizadores de competições adotem medidas razoáveis para minimizar riscos previsíveis aos participantes.
Isso não significa impedir mudanças nas regras do jogo. Significa que alterações capazes de elevar significativamente a carga física dos atletas devem ser acompanhadas de estudos científicos, monitoramento permanente e protocolos adequados de prevenção de lesões.
O equilíbrio entre espetáculo e proteção
É inegável que a nova orientação produziu um futebol mais dinâmico e atraente para o público.
Ex-árbitros ouvidos pela Reuters elogiaram a decisão da FIFA por permitir que o jogo flua melhor e reduza interrupções desnecessárias. Mas o próprio levantamento mostra que essa evolução pode vir acompanhada de novos desafios para a medicina esportiva e para a governança do futebol.
A Copa de 2026 talvez esteja inaugurando uma nova forma de jogar futebol.
O desafio será garantir que, na busca por um espetáculo mais intenso, a proteção da integridade física dos atletas continue ocupando o mesmo lugar de destaque nas decisões da entidade que governa o esporte.






