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Gomes Altimari Advogados
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#Governança Corporativa  #Notícias

Grandes grupos se reorganizam em holdings e deixam para trás ‘velha indústria’

13 de julho de 2026

Tradicionais conglomerados industriais do país estão adotando a estratégia de “holding de investimentos” para fazer a venda de ativos antes considerados “core” (principal) aos seus negócios e investir em participações, não necessariamente majoritárias, em empresas de áreas distintas das suas originalmente.

A gestão mais ativa de portfólio é uma tendência de grandes grupos brasileiros, que vêm de um movimento de consolidação nos últimos 20 anos, afirmam especialistas ouvidos pelo Valor. Essa estratégia também tem sido adotada por companhias que estão na segunda e terceira geração das famílias fundadoras e não estão mais no dia a dia do negócio.

“Há 20 anos, era difícil ver um conglomerado brasileiro fazendo gestão ativa de portfólio. Era muito mais uma direção única: comprar, comprar, comprar”, diz Alessandro Zema, corresponsável pelo Morgan Stanley no Brasil e América Latina. “Os grupos têm analisado mais se faz sentido continuar investido em determinados setores ou se preferem dobrar a aposta em outros.”

Para Anderson Brito, responsável pelo UBS BB, esse movimento da indústria é um caminho natural, sobretudo pela profissionalização desses conglomerados. “Vimos isso lá fora. Empresas crescem e, com a profissionalização, cria-se um modelo de governança superestruturado”, diz.

Mas há desafios também nessa trajetória, segundo Brito. “Tem o desafio de disciplina de quais setores deverão ser investidos, de qual será a geografia. Quando há uma diversificação sem regras, há riscos embutidos.”

Ele cita, por exemplo, as empresas que foram alvos da Operação Lava-jato. Boa parte delas se diversificou, ampliando atuação em novas áreas, mas acabou sendo alvo de investigação por conta de envolvimento em corrupção.

Grupo centenário, o Votorantim foi um dos pioneiros na adoção do conceito de holding de investimentos e em diversificação. A família fundadora – os Ermírio de Moraes -, com cerca de 150 membros, hoje está fora da operação dos negócios mas é recebedora de dividendos, o que exige ainda mais atenção na divisão dos recursos entre investimento em expansão e remuneração dos acionistas.

Esse processo começou a ficar mais direcionado há quase uma década, com a venda da Fibria (incorporada pela Suzano), consumada em janeiro de 2019. No início deste ano, o grupo anunciou a venda de 68,6% da empresa de alumínio CBA para a chinesa Chinalco e a anglo-holandesa Rio Tinto, por quase R$ 5 bilhões. A holding também está em conversas com a sueca Boliden para venda do ativo de metais Nexa, segundo o Pipeline, site de negócios do Valor.

Hoje, o Votorantim está bem posicionado também na Hypera, uma das maiores farmacêuticas nacionais, com participação de 15,8%, mais perto da fatia do fundador, João Alves de Queiroz Filho. Ao se desfazer dos negócios de mineração e metais e investir em indústria farmacêutica e energia, o conglomerado reduz exposição a setores cíclicos e eleva presença em mercados menos voláteis e de geração de caixa mais estável. A holding não quis comentar o tema.

Dona do grupo Ipiranga, a Ultrapar também passou a administrar o conglomerado como uma holding estratégica de negócios, com avaliação ativa de suas empresas. Fundado pelas famílias Igel e Beltrão, o grupo foi um dos primeiros a ter gestão profissionalizada. Os herdeiros do grupo, cerca de 20 no total, não participam dos negócios.

A entrada de Marcos Lutz, ex-Cosan, como executivo e acionista minoritário, intensificou o conceito de holding do grupo. Nesse contexto, vendeu a Oxiteno, divisão de química, e a Extrafarma, após uma incursão que não deu certo no varejo farmacêutico. Sob sua gestão, não está descartada a entrada de investidores para os principais negócios do grupo, como a distribuidora de combustíveis, e a Ultracargo, divisão de logística.

A Ultrapar esteve até pouco tempo olhando os ativos da Rumo, braço de logística e ferrovia da Cosan, mas decidiu sair da mesa de negociações. Para o grupo, com foco em energia, infraestrutura e logística, a entrada de um investidor, que não precisa ser necessariamente financeiro, em negócios “core” hoje é visto como estratégico. Como conhecedor do negócio, o conglomerado acredita que um novo sócio pode ajudar a participar do crescimento de suas companhias investidas mantendo o DNA da gestão do grupo. O Ultra não quis comentar o assunto.

Tem o desafio de disciplina de quais setores deverão ser investidos, Quando há diversificação sem regras, há risco” — Anderson Brito

Fundado pela família Batista, dona da JBS, o grupo J&F foi se diversificando para além dos frigoríficos e hoje controla importantes negócios dentro e fora do país. A família atua em diversos ramos por meio da holding J&F, com presença em celulose (Eldorado), energia (Âmbar), finanças (PicPay), higiene e beleza (Flora), além da área de mineração.

Apesar do gigantismo atual, o grupo viveu momentos de encolhimento num passado recente. Após firmar acordo de leniência em 2017, na esteira de malfeitos revelados pela Operação Lava-Jato, a J&F teve de se desfazer da Vigor (de laticínios), da Alpargatas (dona da Havaianas) e da Eldorado Celulose – esta acabou recomprada ano passado, após um longo e turbulento processo com seu antigo sócio, a Paper Excellence..

O conglomerado dos Batista se recuperou, voltou à ponta compradora de ativos e mantém a estratégia de investir em novos negócios por meio da holding. Procurada, a J&F não comentou.

A trajetória de holding também foi trabalhada pela Cosan, de Rubens Ometto Silveira Mello, que originalmente atuava no setor sucroalcooleiro. A partir dos anos 2000, entrou na área de distribuição de combustíveis, por meio de uma joint venture com a Shell, na área de gás canalizado (hoje Compass), terras agrícolas (Radar) e logística (Rumo) e lubrificantes (Moove).

Mas um passo visto como ousado – a compra de uma fatia que chegou a cerca de 5% da Vale, iniciada em de 2022 e encerrada com prejuízo em 2025 – foi considerado um erro estratégico da companhia de infraestrutura, energia e logística.

O grupo se alavancou, em um cenário de juros altos, levando o seu fundador a vender a fatia na mineradora. Ao mesmo tempo, a divisão de açúcar e etanol, sob o guarda-chuva da Raízen, também enfrentou dificuldades de estratégia para a execução da expansão de etanol de segunda geração, segundo fontes.

A Raízen protagoniza hoje a maior recuperação extrajudicial em andamento no país, com dívidas de R$ 65 bilhões. A empresa vendeu diversos ativos, como usinas de etanol, terras, por meio da Radar, refinaria na Argentina, e busca um sócio para a Rumo.

Neste ano, a companhia de Rubens Ometto abriu o capital da empresa de gás canalizado Compass. Na Moove, que reúne os negócios de lubrificantes, tentou fazer o mesmo nos Estados Unidos, mas desistiu por considerar que o ativo não tinha sido valorizado o suficiente por investidores de fora. Procurada pela reportagem, a Cosan não quis conceder entrevista.

No grupo Simpar, que completa 70 anos de história em 2026, a segregação dos negócios em empresas independentes, sob o guarda-chuva de uma holding dedicada à gestão do portfólio da família Simões, começou a ser preparada em 2013 e culminou na listagem da Simpar na B3 em 2020 – as controladas Vamos (locação de caminhões e equipamentos), Movida (locação de veículos e gestão de frota) e JSL (logística) também negociam ações em bolsa.

“A Simpar foi criada há 5 anos, porque o acionista queria ter uma holding ativa que fizesse gestão de portfólio”, diz o vice-presidente executivo de finanças do grupo, Denys Marc Ferrez.

Com sete empresas incluindo um banco, o BBC Digital, e 57 mil funcionários, o grupo “está feliz” com os ativos que possui e “acredita no potencial de desenvolvimento e criação de valor” a partir desse portfólio. “Mas existe uma atenção a movimentos que eventualmente possam criar valor”, afirma Ferrez, ao ser questionado sobre potenciais aquisições ou desinvestimentos.

“[A Simpar] Tem um portfólio que gosta. Não estamos aqui para trabalhar e vender ativos. Mas se entendermos que tem alguém que possa criar mais valor [do que o grupo], vamos avaliar”, acrescenta, citando como exemplo a venda da Ciclus Ambiental, de tratamento de resíduos, para a Aegea no ano passado.

O grupo, que enfrentou um período difícil em termos de alavancagem após um ciclo de investimentos elevados nos últimos anos, acaba de ser capitalizado em R$ 3 bilhões por meio de aportes sobretudo do controlador e da BNDESPar, braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

FONTE: VALOR ECONÔMICO

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