O Ibrachina FC é a grande sensação da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2026. Em uma sequência que chamou a atenção de todo o país, o clube eliminou gigantes como Atlético, Internacional e Palmeiras, três potências tradicionais do futebol brasileiro. A campanha não é apenas surpreendente pelo resultado, mas simbólica por aquilo que representa: a consolidação de um projeto de base que desafia a lógica do “tamanho do escudo” e reafirma o valor do planejamento.
Mais do que vitórias pontuais, o Ibrachina mostra regularidade, maturidade competitiva e identidade. Em um torneio curto, de margem mínima para erro, o clube apresentou algo raro em equipes jovens: capacidade de adaptação ao adversário sem abrir mão do próprio modelo de jogo.
Muito além do resultado
A trajetória do Ibrachina na Copinha não começa em janeiro. Ela é construída diariamente, ao longo de anos, a partir de um modelo de formação integrado, que articula futebol, educação e desenvolvimento humano. O clube parte do pressuposto de que o rendimento esportivo é consequência – e não ponto de partida – de um processo bem estruturado.
Além disso, o clube entende que a base é, antes de tudo, um espaço de formação. O resultado esportivo importa, mas não se sobrepõe à construção de trajetórias sólidas, dentro e fora do futebol.
Metodologia e identidade de jogo
Desde as categorias iniciais, o Ibrachina trabalha com princípios claros de jogo, que atravessam todas as equipes da base. A ideia é simples na teoria e complexa na execução: formar atletas inteligentes, capazes de compreender o jogo, tomar decisões rápidas e atuar em diferentes contextos táticos.
A equipe que encanta na Copinha de 2026 é reflexo direto dessa metodologia. Marcação organizada, compactação, intensidade e coragem para jogar contra qualquer adversário foram marcas recorrentes. O clube mostra que é possível competir contra gigantes sem recorrer apenas ao jogo físico ou à bola longa, apostando em organização e inteligência coletiva.
Essa identidade comum facilita a transição entre categorias e reduz o impacto da pressão externa, tão comum em competições de base com grande visibilidade.
Criado em meio à pandemia de Covid-19, o Ibrachina FC nasceu a partir de um projeto social ligado ao Instituto Brasil-China (Ibrachina), com o objetivo de utilizar o esporte como ferramenta de transformação social.
“O clube começou através do Instituto Brasil e China, o Ibrachina, com seus trabalhos nas comunidades, onde o esporte e o futebol são as ferramentas para formar esses meninos e torná-los bons cidadãos. A estrutura, como centro de treinamento, alojamento e arena próprios, com boa infraestrutura, nos permite potencializar a forma desses meninos jogarem bola”, explica Henrique Law, presidente do Ibrachina.
Apesar da desconfiança inicial, o clube rapidamente apresentou resultados concretos. Atualmente, o Ibrachina FC disputa competições oficiais nas categorias sub-15, sub-17 e sub-20, com desempenho esportivo consistente e presença constante nas fases decisivas dos torneios estaduais.
Mais do que os resultados em campo, o clube passou a se destacar pelo modelo de formação adotado, que alia estrutura, acompanhamento profissional e total compromisso com a legislação esportiva. O Ibrachina FC possui Certificado de Clube Formador (CCF), o que o credencia como agente relevante na formação e desenvolvimento de atletas no futebol brasileiro.
Esse trabalho já rendeu frutos importantes. Entre as negociações recentes, estão os atacantes Riquelme, de 15 anos, que assinou contrato de três temporadas com o Palmeiras, e Cauã, de 14 anos, transferido para o Corinthians. Além disso, o clube também já realizou negociações com equipes do exterior, reforçando sua vocação como formador de talentos.
“O Brasil precisa de mais clubes formadores – os jovens talentos que temos no Brasil precisam de estrutura, comissão técnica; estudo; atendimento médico; refeição; formação e etc. O Ibrachina vem fazendo esse trabalho e os resultados vem com tempo e dedicação”, entende Thomas Law, vice-presidente do Ibrachina.
Estrutura que acolhe e protege
Fora das quatro linhas, o Ibrachina também se diferencia. Psicologia do esporte, serviço social e acompanhamento educacional não são tratados como acessórios, mas como partes centrais do projeto. Em um torneio como a Copinha, em que jovens atletas lidam com exposição, expectativas familiares e olhares do mercado, o suporte emocional faz diferença concreta.
O clube entende que a pressão faz parte do processo, mas não pode ser desorganizada ou negligenciada. Preparar o atleta para lidar com frustrações, decisões de arbitragem, eliminações e também com vitórias inesperadas é parte da formação.
Esse cuidado se traduz em campo: o Ibrachina mostra equilíbrio nos momentos decisivos, maturidade após gols sofridos e controle emocional em disputas eliminatórias — fatores decisivos em jogos grandes.
Gestão profissional da base
Outro pilar fundamental está na gestão profissional do futebol de base. Enquanto muitos clubes ainda tratam a base como um setor secundário, o Ibrachina a coloca no centro do projeto institucional. Planejamento de longo prazo, definição clara de responsabilidades e integração entre gestão e comissão técnica criam um ambiente estável. Além de gestão profissional, o clube adota pilares de integridade.
Há metas esportivas, mas também indicadores de formação, acompanhamento individual e avaliação constante dos processos. Isso permite correções de rota sem rupturas bruscas, algo essencial no trabalho com jovens.
A campanha na Copinha é, portanto, resultado de governança, método e coerência. Não é um “time da vez”, mas a expressão visível de um projeto que vem sendo amadurecido. Um trabalho que não é do dia para noite, como explica Henrique Law.
“A preparação foi muito parecida com a das outras edições. O resultado que aparece é fruto de um trabalho feito ao longo de um ano inteiro.”
Um recado claro para o futebol brasileiro
A Copinha de 2026 deixa uma mensagem contundente: tradição sem projeto não garante mais resultados, nem mesmo na base. O Ibrachina mostrou que organização profissional, cuidado humano e identidade esportiva podem nivelar — e superar — diferenças históricas de orçamento e visibilidade.
O clube não apenas venceu jogos. Ele apresentou um modelo. E, ao fazê-lo, lembrou ao futebol brasileiro que formar atletas exige mais do que talento bruto: exige método, responsabilidade e visão de futuro.






