O sobe-e-desce de preços das commodities é uma constante no mercado global, mas não precisa, necessariamente, ameaçar as margens de lucro ou tirar o sono dos produtores rurais.
O instrumento financeiro conhecido como “hedge” (ou “cobertura” em tradução livre do inglês) é o tipo de proteção mais utilizado contra as oscilações do mercado. Por meio dele, o produtor rural pode travar o preço futuro de commodities (como soja, milho, café, boi gordo, etanol e outras) e, assim, saber exatamente quanto irá receber por unidade de produto, independentemente das oscilações das cotações.
Para explicar o que é e como funciona essa ferramenta, conversamos com três especialistas – consultoria, academia e mercado (trading) – sobre os principais aspectos e modelos de hedge.
Afinal, o que é hedge?
“No agronegócio, o hedge é uma prática que o produtor pode adotar para proteger o preço de sua produção e, assim, assegurar margem de lucro mesmo antes da colheita”, introduz Daniel Latorraca, economista e ex-superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea).
Ele cita um exemplo hipotético. Se a saca de soja está prevista para valer R$ 130 no mercado futuro, o produtor tem a possibilidade de garantir essa cotação por meio de contratos com instituições como bancos, corretores ou mesmo cooperativas e tradings.
Maria Paula Cicogna, professora de mercados de capitais e derivativos da Esalq da Universidade de São Paulo (USP), detalha que a lógica do hedge é comparar os custos de produção de uma operação agrícola com a cotação da produção no mercado futuro.
“Considerando todos os custos, como semente, defensivos, fertilizantes, expectativa de produtividade, transporte e outros, o produtor decide se quer garantir aquele preço futuro ou não. Daí ele tem a certeza contratual de quanto receberá”, explica.
Na prática, o agricultor ou o pecuarista também têm outras variáveis inerentes à atividade rural como a produtividade, que depende de fatores como clima, sanidade ou performance, ou risco de quebra. Em todo caso, saber o preço de venda pode ser uma vantagem importante.
Vantagens e desvantagens
O gerente de trading da ADM (Archer Daniels Midland Company), João Santos, explica que o hedge traz vantagens e desvantagens. O especialista, no entanto, sustenta que produtores “protegidos” têm melhores resultados em geral. Segundo ele, as principais vantagens são, justamente, maior previsibilidade no negócio pela garantia do preço de venda.
“A ferramenta mitiga incertezas, principalmente no ambiente que vivemos com tanta volatilidade econômica e geopolítica”, comenta.
Ou seja, se o preço foi travado a R$ 130 por saca de soja e a cotação “spot” ou “balcão”, no momento do vencimento do contrato estiver a R$ 100, o produtor receberá R$ 30 a mais por saca.
A margem final, no entanto, ainda deve considerar os custos financeiros da operação. Como desvantagem, ele aponta a necessidade de conhecimento aprofundado, o custo ou prêmio pago pelo produtor por algumas dessas ferramentas e demanda por planejamento de fluxo de caixa.
“Como o produtor vai receber no futuro, ele precisa planejar bem o fluxo de caixa”, enfatiza.
Outra desvantagem, especificamente na modalidade de contrato futuro, é a possibilidade de o preço da commodity ficar acima do estabelecido no contrato na data de vencimento. Neste cenário, o produtor receberá um valor menor pela sua produção em relação ao preço praticado no mercado.
Em outro exemplo fictício, se o preço foi travado a R$ 130 por saca de soja, e a cotação foi a R$ 150, a remuneração será R$ 20 menor, além dos custos da operação.
Vale dizer, no entanto, que algumas modalidades de hedge, como a de opções, evitam esse tipo de “perda” comparada na alta.
Passo a passo
O primeiro passo para proteger o preço com hedge é conversar com instituições que realizem esse tipo de operação. Entre elas estão cooperativas, bancos, corretoras, tradings e, também, a bolsa de valores, a B3. Neste caso, o interessado precisa de conta própria em corretora.
“O produtor rural pode conversar com parceiros de negócio que vão instruí-lo. Assim, ele terá suporte de especialistas”, sugere João. Normalmente, os produtores rurais possuem relação, no mínimo, com instituições bancárias ou cooperativas, que poderão operar a parte burocrática, além de explicar sobre os diferentes modelos de hedge.
A partir daí, o produtor deverá escolher a melhor solução financeira para seu tipo de operação. “Existem várias opções de ferramentas para se adequar a cada necessidade”, completa.
Tipos de hedge
Os especialistas citaram ao menos quatro modalidades principais de gestão de risco com garantia de preço via hedge.
O primeiro modelo são os contratos futuros, que estabelecem via contrato o preço a ser recebido pela commodity em uma data específica no futuro. Negociados na bolsa, eles são produtos financeiros com padrões de volume (contratos de 136 toneladas de soja, por exemplo), vencimentos em diferentes meses do ano e exigência de garantias.
Um segundo modelo é o de contratos de opções. Elas partem da mesma lógica, mas têm o diferencial de o produtor poder ou não exercer o preço estabelecido no contrato futuro. Ou seja, o produtor escolhe se é vantajoso ou não no momento do vencimento.
“Se o produtor escolhe o modelo de opções, ele fica desobrigado de cumprir o preço de contrato caso a cotação no mercado esteja mais alta. Mas isso tem um preço que é cobrado pela instituição financeira”, alerta Maria Paula.
Já os contratos a termo são mais customizáveis de acordo com a necessidade de cada produtor. Apesar de não serem negociados na bolsa com padrões fixos, eles precisam ser registrados na B3, por exemplo.
O quarto modelo são as operações estruturadas, que envolvem combinação de produtos financeiros, com contratos futuros e opções customizadas.
“Por exemplo, o produtor pode definir limites mínimo e máximo de preços. Por isso, as operações estruturadas acabam sendo atrativas”, detalha João.
Formação financeira
O representante da ADM constata que o hedge ainda é pouco difundido no Brasil, principalmente entre pequenos e médios produtores.
“Em outros mercados, como os Estados Unidos, mesmo os produtores menores já utilizam amplamente. Aqui acham que o hedge é especulativo, mas é para proteger receitas e margens”, diz João.
A professora Maria Paula lembra que a cultura financeira no Brasil ainda é muito baixa, apesar de estar evoluindo nos últimos anos. “Muitos produtores até sabem que o conceito existe, mas ficam com medo de fazer por não conhecerem bem. Contudo, a ferramenta é justamente para o contrário. Serve para diminuir o risco”, avalia.
Ela comenta que há vários tipos de ferramentas financeiras, mas, em geral, pouco adotadas entre pequenos e médios produtores.
“O mercado financeiro brasileiro deveria estar mais adaptado a produtos para esse perfil de produtor”, diz.
Para Daniel Latorraca, os produtores estão começando a entender melhor tais ferramentas, mas, ainda, boa parte da produção brasileira é comercializada com alto risco.
“Ainda vemos que os modelos mais comuns são o spot ou balcão, altamente expostos ao vai-e-vem das cotações e de outras variáveis”, finaliza.






