Se por muito tempo o principal desafio da transição verde foi mobilizar financiamento, o problema agora mudou de lugar.
Com bilhões já disponíveis em instrumentos financeiros como o Eco Invest, o BNDES e fundos multilaterais, o Brasil enfrenta um novo gargalo: transformar capital em projetos prontos para receber investimento.
A avaliação é de Patrícia Ellen, ex-secretária de Desenvolvimento Econômico de São Paulo e atual CEO da Systemiq para a América Latina, empresa global que atua na articulação entre governos, empresas e investidores para acelerar a transição para uma economia de triplo impacto: positiva para negócios, pessoas e natureza.
Seu foco de trabalho está nas frentes de sistemas alimentares, energia, economia circular e finanças sustentáveis, além de agendas transversais como tecnologia e adaptação climática.
“O Brasil já conseguiu mobilizar capital. O problema agora é transformar isso em projetos que saiam do papel, poucos ainda estão maduros”, diz em entrevista à EXAME.
A mudança acontece em um momento em que o potencial econômico da transição verde no Brasil é significativo. Segundo a Plataforma da Nova Economia recentemente lançada pela Systemiq, a transformação ecológica pode adicionar entre US$ 230 bilhões e US$ 430 bilhões ao PIB até 2030, com crescimento acima da média histórica do país.
Ao mesmo tempo, pode gerar entre 16 milhões e 28 milhões de empregos em setores como energia, bioeconomia, indústria e infraestrutura verde .
Apesar disso, os investimentos ainda não acompanham a escala da oportunidade. O relatório aponta que os aportes em iniciativas sustentáveis seguem “pontuais, dispersos e insuficientes” diante da urgência planetária — mesmo que com avanços.
Só em 2025, ano em que o país sediou a COP30 em Belém, cerca de US$ 40 bilhões em novos recursos climáticos foram anunciados no país, impulsionados por bancos multilaterais, fundos soberanos e instrumentos públicos .
Agora, segundo Ellen, o desafio passa a ser estruturar projetos, reduzir riscos e criar pipeline suficiente para absorver esse volume de recursos.
“Não adianta ter capital disponível se não há estrutura previsibilidade e escala. O dinheiro não flui”, afirma.
Na prática, a plataforma funciona como um “sistema de inteligência territorial” e tem como missão reduzir o tempo entre diagnóstico e execução.
A partir da integração de dados sobre economia, emprego e educação, ela permite identificar quais regiões têm maior potencial para desenvolver cadeias ligadas à bioeconomia, energia limpa ou produtos da indústria de baixo carbono e o que ainda falta para viabilizá-los.
Segundo a CEO, a ideia surgiu em um contexto de transformar uma agenda que, por anos, ficou restrita a compromissos climáticos e planos estratégicos em uma lógica concreta de desenvolvimento econômico.
“A transição não acontece no abstrato. Ela acontece nos territórios, nas cadeias produtivas, nas ações concretas”, destaca Ellen. “Sem clareza de onde estão as oportunidades e os entraves, o investimento não chega”.
“A gente precisa deixar de exportar só commodity e passar a exportar produto de baixo carbono com valor agregado”, acredita a CEO, que vê no recentemente aprovado Acordo UE-Mercosul uma oportunidade de impulsionar o comércio internacional com mais sustentabilidade produtiva.
Segundo estudos da Systemiq, o país tem condições únicas para isso, ao combinar biodiversidade, matriz energética limpa e disponibilidade de recursos naturais, vantagens que podem ser convertidas em competitividade econômica e tecnológica .
Para Ellen, não restam dúvidas que o Brasil reúne condições raras para liderar a nova economia verdeao combinar condições únicas: biodiversidade, matriz energética limpa e disponibilidade de recursos naturais, vantagens que podem ser convertidas em competitividade econômica e tecnológica. Mas transformar esse potencial em crescimento depende da capacidade de execução.
“O potencial está posto. A questão agora é velocidade e escala” , afirma. “Se a gente não estruturar projetos e cadeias produtivas rapidamente, outros países vão capturar essas oportunidades” , complementa.
O desafio passa por melhorar a coordenação entre políticas públicas, reduzir riscos para investidores e desenvolver capacidades locais: tanto em infraestrutura quanto em qualificação da mão de obra.
Geopolítica e a corrida global pelo fim dos fósseis
A executiva, indicada como High-Level Champion da COP30, trabalha de forma ativa com a presidência brasileira da COP, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago.
Segundo ela, o Brasil deve apresentar o tão esperado roteiro ou “roadmap” da transição dos combustíveis fósseis ainda nas negociações climáticas de Bonn, em junho. No final de abril, acontece a primeira conferência do fim dos fósseis, em Santa Marta, na Colômbia, onde o tema deve amadurecer para que se entregue algo concreto conforme prometido antes da COP31 na Turquia.
A proposta busca posicionar o Brasil não apenas como parte da solução climática, mas como protagonista de uma nova agenda econômica baseada em baixo carbono.
“Temos a chance de liderar essa discussão global, inclusive na transição dos fósseis”, diz Ellen. Sua leitura é que a economia verde no Brasil deixou de ser uma agenda de intenção e entrou em uma fase decisiva de implementação.






