O GPA, dono da rede Pão de Açúcar, enfrenta uma difícil situação financeira, talvez uma das mais duras desde que a rede saiu, em 2012, das mãos de Abilio Diniz, morto em 2024, e passou a ser gerida pelo grupo Casino, o negócio de Jean-Charles Naouri por anos. Naouri segue afastado do Casino e foi condenado em janeiro, na França, por corrupção e e disseminação de informações falsas.
Quatorze anos após os franceses do Casino assumirem o grupo (ele ainda é o segundo maior sócio, atrás da família Coelho Diniz), o GPA admitiu nas notas explicativas de seu balanço, publicado na terça-feira (24), a existência de dúvidas relevantes sobre sua continuidade operacional. Ontem, disse que está em meio a negociações relativas ao vencimento de passivos de R$ 1,7 bilhão neste ano (o dobro de 2024, e 42% da dívida bruta total), sendo R$ 1,4 bilhão em debêntures. Mas não há visibilidade sobre o avanço desses acordos.
O grupo não tem recursos líquidos para arcar com esse montante a vencer no curto prazo sem que isso afete seus planos. Esse cenário levou o GPA a cortar investimentos pela metade e a congelar projetos. Por enquanto, fechamento de lojas está descartado.
Em caixa, havia R$ 1,99 bilhão ao fim de dezembro, 25% inferior ao apurado um ano antes, para uma dívida bruta de R$ 4 bilhões. A rede fechou 2025 com relação dívida líquida e Ebitda de 2,4 vezes, frente a 1,6 vez um ano antes. O Ebitda mede lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação.
Além da dívida, há um outro nó nos números da rede: o total das contingências fiscais e trabalhistas que se arrastam ao longo dos anos – da época que o GPA era uma máquina de vendas. São R$ 17 bilhões (leia texto ao lado), que estão em fase de negociação com Estados.
Só para ter uma ideia de como essa conta evolui nas grandes varejistas, com lojas em todo o país e altamente empregadoras, apenas no quarto trimestre a cadeia recebeu dois autos relacionados, principalmente, com subvenção para investimento e lucros auferidos no exterior. O montante envolvido equivale a R$ 2,4 bilhões, quase o dobro do ano anterior, segundo notas explicativas do balanço.
“Temos que dar garantias [aos credores, sobre passivos fiscais] nas discussões da esfera judicial e isso envolve a liquidez da empresa”, disse a analistas ontem Rodrigo Manso, diretor de relações com investidores. “Estamos no meio de renegociações de vencimentos para os próximos meses, mas é difícil prever a conclusão do passivo fiscal”, completou o CEO, Alexandre Santoro, há apenas dois meses no cargo e indicado pelos atuais acionistas da família Coelho Diniz.
A expectativa é que, com os pagamentos tributários à vista feitos no ano passado, negociados com os Estados, esses custos possam ser menores em 2026, disse.
Somado a isso, segundo o diretor, a rede teve em 2025 concentração de renovação de seguros das garantias e o impacto dessa linha tende a ser menor neste ano. Esses contratos se renovam em cinco anos, com efeito no primeiro ano em pagamento “one shot”. Ele ainda disse que o grupo tem trabalhado em discussões judiciais para buscar a troca de garantia
“Mas não tenho como dar números para isso”, disse, durante a teleconferência que durou 50 minutos. No início das conversas com analistas, a ação da rede caía cerca de 2% e ao final o recuo superava os 5%. A ação fechou com queda de 2,24%, a R$ 3,06.
Para ter uma clareza melhor do que são essas contas no GPA, a situação atual envolve, no quarto trimestre, o desembolso de R$ 151 milhões, composto principalmente por pagamentos de contingências tributárias, cíveis, regulatórias e honorários advocatícios. Ainda houve efeitos não recorrentes de R$ 398 milhões compostos por desembolsos com processos trabalhistas de ex-empregados, boa parte relacionados ao Extra Hiper, que foi fechado há quatro anos, mas ainda pesou no balanço em quase R$ 400 milhões.
Também houve pagamentos referentes a acordos tributários com o governo da Bahia, totalizando R$ 129 milhões. Essas negociações entram nessa conta, com descontos significativos, mas pesam nessa linha.
Outro cálculo, paralelo a esse, tem a ver com a alavancagem da empresa. Ao se analisar o fluxo de caixa de 2025, o problema central é que o GPA até gera caixa operacional (R$ 669 milhões, mais que o dobro de 2024), mas os custos financeiros líquidos das dívidas que carrega – e aí pesam os juros, custos com fianças e outros – chegam a R$ 920 milhões, alta de 55%.
Sobre a operação, Santoro disse que a projeção de investimentos é de R$ 300 milhões a R$ 350 milhões em 2026 – a metade dos R$ 612 milhões de 2025, e a ideia é proteger a operação nesse processo. Mas ele não deu detalhes de medidas que estão sendo tomadas em relação ao negócio do Pão de Açúcar, que sofre dura concorrência e tem como um dos pilares o alto nível de serviço.
Foi a redução de investimentos na rede que fez o supermercado perder venda e levou a uma reestruturação anos atrás. “Investimento de sustentação continua, mas tudo de expansão não vai acontecer”, disse o CEO. “A estrutura de despesas ainda é elevada, e há espaço para ganhos adicionais para ajustar a rede à realidade”.
Um plano de eficiência foi lançado para 2026, com o objetivo de reduzir despesas em pelo menos R$ 415 milhões – ou 11% da linha de despesas totais de 2025. Segundo Manso, mais de 80% do valor já está mapeado e validado, com início da captura a partir do primeiro trimestre. A receita líquida do GPA caiu 2% no quarto trimestre e subiu 1,7% em 2025, a perda recuou 61%, para R$ 651 milhões.






