A varejista de móveis Marabraz pediu recuperação judicial com pedido de liminar na noite de sábado, conforme documento protocolado na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, por conta de uma crise familiar que se estende há anos entre os Fares e os Nasser.
Embora fatores macroeconômicos, como a elevação das taxas de juros, a retração do consumo e o aumento da inadimplência tenham afetado a companhia, aspectos internos impactaram amplamente o andamento do negócio.
Houve uma ruptura das relações familiares e societárias envolvendo uma estrutura de ativos da família que dava segurança para o crescimento da operação.
De acordo com os documentos enviados para o juízo, a estrutura de financiamento da Marabraz contava com apoio das linhas obtidas pela família Fares, originária do Líbano, e sua área imobiliária. Embora esse patrimônio não integrasse o ativo da rede, essa estrutura era fundamental nas garantias aos bancos.
“Ao longo de anos, esses ativos foram utilizados para conferir maior robustez a determinadas operações financeiras, mediante a constituição de reforços creditícios e outras estruturas negociais legitimamente admitidas pelo mercado, permitindo às requerentes acesso a linhas de crédito compatíveis com a dimensão de sua atividade econômica”, diz o pedido de recuperação.
Os móveis da família eram dados como garantia para os negócios, como a Marabraz. O problema é que disputas societárias e familiares alteraram substancialmente o modelo de financiamento que, durante décadas, sustentou a operação da empresa, diz a própria rede nos documentos.
“Isso porque os administradores responsáveis pela condução da atividade empresarial deixaram de exercer controle sobre as sociedades titulares do patrimônio imobiliário que historicamente respaldava as operações de crédito do grupo”, diz o documento.
O Valor apurou que excedentes financeiros que eram gerados e eram sistematicamente reinvestidos na aquisição de imóveis foram deixando de ser reinvestidos, e eles eram utilizados como garantia em operações de crédito contratadas pela empresa. Isso ajudava a manter uma organização patrimonial estável e de credibilidade pelos bancos.
Na prática, a rede passou a não mais dispor dos ativos que tradicionalmente serviam de garantia às instituições financeiras, comprometendo a renovação de linhas, a contratação de novas operações e a manutenção das condições de crédito que até então permitiam o financiamento de suas atividades.
Os bancos passaram a demandar novas garantias, reduziram limites de crédito, elevaram o custo das operações e, em diversos casos, deixaram de renovar linhas indispensáveis ao capital de giro da rede.
Vale lembrar que isso tudo ainda ocorreu num ambiente em que o mercado restringiu o risco ao mercado varejista, depois da recuperação judicial da Americanas. E ainda num mercado duramente afetado pela demanda oscilante: o setor mobiliário.
Nesse cenário, a Marabraz ainda passou a demandar mais capital de giro, para tentar recuperar o fôlego que tinha com a estrutura de crédito antiga, exatamente quando a empresa passou a encontrar um quadro significativamente mais restritivo para obtenção de linhas no mercado.
“Formou-se, assim, um círculo progressivo de deterioração financeira”, diz a rede no seu pedido. “A redução da disponibilidade de crédito comprometeu a liquidez das Requerentes; a diminuição da liquidez elevou a percepção de risco do mercado; e essa percepção passou a justificar novas restrições ao crédito, aprofundando sucessivamente as dificuldades financeiras da Marabraz”, afirma.
Os desentendimentos na família Fares e Nasser começaram há mais de uma década por conta de uma disputa dos ativos entre os membros. Como noticiou o Pipeline, site de negócios do Valor, tudo começou com a transferência, em 2011, das cotas da LP Administradora detidas pelos irmãos Jamel, Nasser e Adiel (que fica na operação da rede popular de saúde Clínica Fares) para seus filhos como forma de blindar o patrimônio da família contra o passivo fiscal da Lojas Marabraz.
Nasser transferiu sua parte para sua única filha, Najla; Jamel repassou sua fração para seus três filhos, Karine, Abdul e Sumaya; e Adiel para seus filhos Nader e Raquel.
Nasser ainda tocou a administradora de bens de 2011 a 2021 e realiza a gestão patrimonial conjunta da holding e das lojas Marabraz, na qual é o CEO. Contudo, ele e Jamel, hoje responsável pela área financeira da Marabraz, alegam no processo que, a partir de 2022, os filhos começaram a conspirar contra os pais, que seriam os verdadeiros proprietários da holding, já que a transferência foi feita sem repasse financeiro, relatou o site em matéria de 2024.
A história do grupo remonta à década de 1950, quando Abdul Hamid Mohamad Fares imigrou do Líbano para o Brasil em busca de melhores oportunidades. Após iniciar sua atividade comercial como mascate na cidade de São Paulo, ele fundou em 1965 a sua primeira loja de móveis, denominada Credi-Fares, localizada na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo.
O fundador faleceu em 1978, e em 1986 os sucessores do fundador adquiriram a marca “Lojas Marabraz”, originária da expressão “Maravilhas do Braz”, pertencente a uma tradicional rede de móveis do bairro do Brás que havia encerrado suas atividades.
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/08/16/analise-como-a-batalha-nas-familias-fares-e-nasser-levou-a-marabraz-a-recuperacao-judicial.ghtml






