Tensões familiares, disputas silenciosas e sucessões malconduzidas podem estar custando à economia brasileira o equivalente a 3% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB), calcula a Mardô Family House Integration, especializada em governança familiar e sucessão patrimonial que atende famílias de milionários e bilionários.
As contas do escritório usam como base em uma amostra de perdas potenciais de 100 famílias que são ou já foram atendidas, considerando que 65% do PIB brasileiro – ou R$ 8,25 trilhões de R$ 12,7 trilhões no ano passado – são fortunas passadas entre gerações. Assim, o potencial de destruição de riqueza por conflitos sucessórios representaria entre R$381 bilhões e R$ 635 bilhões.
“Conflitos familiares geram depreciação patrimonial e problemas para a economia. Quando todos estão alinhados no sistema familiar, a contribuição econômica e social tende a ser muito maior”, diz Marcia Dolores, CEO da Mardô e psicóloga de formação que já aplicou a metodologia a mais de 400 famílias endinheiradas do país.
Mardô mantém uma carteira de 20 a 30 famílias com mais de R$ 150 milhões em ativos atendidas anualmente, que hoje somam cerca de R$ 80 bilhões em patrimônio. Ela atua antes da contratação de advogados, gestores de patrimônio e multi family offices, sem substituir nenhum deles ou ocupar cadeira em conselhos de administração, mas ajudando a montar um conselho de família, com definições de papéis e expectativas.
“Posso encontrar um perfil intraempreendedor que faz uma holding crescer muito. O objetivo é ajudar a sair do estágio de empresa familiar para se tornar uma família empresária e, depois, uma família investidora”, diz ela.
A isonomia de informações entre as partes é inegociável, diz Dolores, que abriu mão de um cliente empresário que omitiu ter colocado as dívidas em nome dos herdeiros. “Aquilo contrariava tudo o que estávamos construindo”, diz. A executiva também defende envolver os jovens muito antes da sucessão efetiva, mas sem expô-los a discussões financeiras complexas.
“Se existe uma geração de 10 ou 12 anos, eu a trago para a mesa. Isso não significa colocar uma criança para analisar uma DRE. Significa ajudá-la a entender seu papel na sucessão e evitar distorções sobre o que significa ser herdeiro”, explica, lembrando o preconceito que a expressão carrega. “Nem todo herdeiro precisa ser sucessor. Existe espaço para todos os perfis, até para o rentista consciente, que alguns chamariam de bon vivant.”
Uma das etapas do trabalho é a criação do protocolo familiar, documento registrado em cartório que formaliza os acordos construídos ao longo do percurso de alinhamento da família, com registro de valores – os morais e emocionais, não financeiros –, práticas e critérios que devem orientar a convivência e a relação com o patrimônio ao longo das gerações.






