Exportar no próximo semestre, pela primeira vez, está nos planos da Avine, empresa avícola instalada em Fortaleza (CE) prestes a completar 35 anos de atividade. Nos últimos dois anos, a produtora de ovos de galinha e codorna participou de feiras globais do setor alimentício com o objetivo de captar clientes internacionais, em especial de países do Golfo Pérsico. Com R$ 428 milhões de faturamento em 2025, a Avine quer ocupar a lacuna, nessa região, causada pelo descompasso entre a alta demanda da indústria de food service por ovos pasteurizados e o limitado fornecimento do produto, afirma Airton Carneiro Junior, CEO da Avine.
Apesar de constatar mais cautela dos importadores do Oriente Médio devido à guerra dos Estados Unidos com o Irã, o executivo mantém os planos de exportação para os países árabes. “Ainda assim, nossa estratégia de longo prazo permanece inalterada, com uma atuação mais intensiva, no curto prazo, na diversificação de mercados, com foco em oportunidades na África e na Ásia”, observa Carneiro.
O mercado internacional tem sido um destino cada vez mais procurado pelas empresas de médio porte do setor do agronegócio, segundo o coordenador do FGV Agro, Guilherme Bastos. “O número de empresas médias e grandes exportadoras do agronegócio cresceu de 1.025, em 2008, para 1.439 em 2025, uma expansão de 40,4% em 17 anos”, observa Bastos. “O valor das exportações desse grupo cresceu, no mesmo período, de US$ 18,8 bilhões para US$ 76,8 bilhões”.
Os dados fazem parte do Relatório Anual de Comércio Exterior por Porte de Empresas, produzido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A pesquisa considera estatísticas agrupadas da Receita Federal, que não disponibiliza números exclusivos de exportadoras de médio porte. Na análise de Bastos, os dados sinalizam oportunidades reais para expansão de médias empresas no agronegócio, sobretudo em nichos como laticínios especializados, proteínas diferenciadas, insumos biológicos e serviços de tecnologia agrícola.
Com produção diária acima de 2 milhões de ovos, a Avine atende a redes varejistas, atacadistas e ao segmento de food service em diversos Estados do Norte e Nordeste. Vende ovos pasteurizados, tradicionais, caipiras, de galinhas livres de gaiolas (cage-free), enriquecidos com ômega-3 e vitamina E e linha para o público infantil. Para este ano, a avícola prevê faturar perto de R$ 460 milhões, 7,47% superior ao volume alcançado no ano passado.
Essa projeção é impulsionada por investimentos de R$ 100 milhões em ampliação da capacidade produtiva, modernização das unidades e fortalecimento de linhas de maior valor agregado. “O projeto de exportação segue em avanço e, em breve, deverá se consolidar como um importante vetor de receitas”, diz Carneiro.
Com sede em Campo Grande (MS), a Servsal é outra média empresa do agronegócio que está em busca da internacionalização. “Já mantemos negociações estratégicas com empresas no exterior”, diz a CEO Roberta Luiza Gomes Maia. Sem revelar detalhes, a executiva conta que o foco inicial das exportações da companhia é uma linha de suplementação para pecuária de corte para países latino-americanos, com conversas mais adiantadas com potenciais clientes da América Central.
De fornecedora de insumos para criações, a Servsal migrou para linhas de nutrição de gado de corte e leiteiro e itens específicos para equinos, ovinos e caprinos, além de formulações customizadas para as carências minerais do bioma Pantanal. “Percebemos essa oportunidade ao notar que o Pantanal era frequentemente negligenciado pelas grandes indústrias devido à complexidade logística”, afirma Roberta. “A aceleração veio com o investimento em nutrição de precisão e a expansão para atender equinos e ovinos.”
Apesar de não exportar, a Agromax New Holland, com presença nos municípios de Anenindeua e Tailândia, no Pará, tem se beneficiado da demanda externa indiretamente. Revendedora de máquinas e peças da marca New Holland, com atividades iniciadas em 2009, a empresa tem seu desempenho atrelado ao plantio de soja e milho, importantes culturas agrícolas nas remessas brasileiras para o mundo.
“O Pará vem se consolidando como uma nova fronteira agrícola, com expansão de culturas como soja, milho e pecuária tecnificada”, afirma Andrea Ribeiro, CEO da Agromax New Holland. “Esse movimento aumenta a demanda por mecanização e tecnologia no campo.”
Por outro lado, Ribeiro aponta que as vendas da Agromax dependem do ciclo da agricultura e das condições de crédito ao produtor. “Nossos clientes são dependentes de linha de crédito do governo e, hoje, as taxas de juros estão altas, e o crédito restrito”, diz Ribeiro. Para este ano, a executiva espera um aumento nas vendas de 25% sobre os R$ 160 milhões atingidos em 2025.
Ribeiro tenta minimizar os impactos com a proximidade dos clientes. “Temos procedimentos e regras, mas, como conhecemos o cliente, conseguimos entregar uma máquina antes de o banco aprovar o crédito”, afirma.
Por conhecerem o mercado de perto, as médias empresas têm vantagens competitivas na tomada de decisão, ressalta o diretor-executivo da Mid Falconi, Rafael Silveira. Na avaliação do consultor, essas empresas conseguem responder com qualidade e agilidade às particularidades de demandas, o que favorece a presença delas em segmentos, como o de insumos agrícolas.
“Nosso porte e cultura fazem com que haja maior geração de valor na relação, trazendo mais confiança e fidelização nas negociações”, diz o CEO da Giroagro, Leonardo Sodré. Fabricante de fertilizantes líquidos e soluções para nutrição vegetal em Machado (MG), a empresa inaugurou, há três anos, uma fábrica de R$ 170 milhões com capacidade produtiva anual de 600 mil quilos de bioinsumos, à base de fungos, e de 3 milhões de litros, à base de bactérias.
A habilidade para mudar a produção e penetrar em mercados específicos é outra vantagem das médias empresas. Enquanto micros e pequenos produtores não têm volume de produção, e os grandes grupos se concentram na estratégia de ganhos de escala, os diversos nichos de mercado em um país de dimensões continentais favorecem a lucratividade das companhias de médio porte. Para Genésio Vasconcelos, pesquisador do setor de parcerias privadas da Embrapa Sede, as médias têm mais mão de obra qualificada, tecnificação e automatização em relação às pequenas, além de maior flexibilidade operacional em comparação aos conglomerados.
“O médio produtor consegue entrar no varejo fatiado, mercado que não consome a escala de um grande e que o pequeno não acessa, porque a técnica é muito específica”, diz Vasconcelos.
Em geral de origem familiar, muitas médias empresas enfrentam resistência quando é necessário profissionalizar a gestão, além de lidarem com alto endividamento e a dependência de crédito privado. Por isso, apesar das muitas oportunidades no agronegócio, planejamento é fundamental. “As perspectivas são positivas, mas exigem posicionamento estratégico”, diz o coordenador da FGV Agro. “Para as médias empresas, isso significa avançar em processamento, diferenciação de produto e inserção em segmentos menos dominados por multinacionais.”






