Ponta de lança da transição energética, a mineração tem sido mais confrontada sobre suas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Hoje, o setor vive o desafio de conciliar o aumento da produção, a demanda crescente por produtos e processos de baixo carbono e a chamada licença social para operar, que passa pela relação nem sempre amistosa com as comunidades próximas aos empreendimentos e o impacto sobre o meio ambiente. Após os desastres envolvendo barragens de rejeitos e com os novos investimentos em minerais críticos entrando na equação, a régua da sustentabilidade da mineração subiu, na avaliação de especialistas e das próprias empresas.
“A agenda de transição energética traz mais investimento em projetos de mineração no Brasil. Lidar com conflitos ambientais e de acesso aos territórios será a tônica do setor, e mediar esses conflitos é onde está a inteligência”, diz Rinaldo Mancin, diretor de sustentabilidade e assuntos associativos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
O recorte Brasil da pesquisa “Top 10 business risks and opportunities for mining and metals”, estudo global feito pela consultoria global EY, corrobora essa percepção. A licença para operar está entre os três principais temas do setor de mineração, atrás de capital e aumento dos lucros e produtividade. Os fatores ESG ocupam a sétima posição na pesquisa, que ouviu 500 executivos do setor de mineração e metais. Além das relações com as comunidades, outros temas que aparecem na pesquisa são a mitigação dos impactos nos biomas, a descarbonização e agenda climática, diz Afonso Sartorio, líder de energia e recursos naturais da EY.
Para performar no ESG, as empresas têm apostado em processos produtivos mais limpos e em produtos com menor pegada de carbono. Um deles é o minério de ferro do tipo “pellet feed”, que tem sido chamado de “minério verde” por possibilitar a redução de até 50% das emissões de gases estufa na siderurgia. Ultrafino e com alto teor de ferro (acima de 66%, requer menos carvão ou coque no alto-forno para a produção do aço.
O minério de ferro premium ocupa um papel estratégico no mercado global, contribuindo para a descarbonização da cadeia do aço” — Ana Cunha
O produto tem demanda crescente em mercados como Europa e Oriente Médio e guia planos de expansão de várias empresas. Uma delas é a Cedro Mineração, que opera em Nova Lima e Mariana, no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, e produz 7 milhões de toneladas/ano de minério de ferro. A nova planta em Mariana, em fase de licenciamento ambiental, vai produzir 5,5 milhões de toneladas de “pellet feed”, voltados para exportação.
O projeto está embasado em várias premissas de sustentabilidade, segundo Fabiano Carvalho, vice-presidente comercial e de estratégia da Cedro. “Será uma planta modelo. Além do minério de ferro de alto valor agregado, teremos empilhamento a seco em substituição a barragem de rejeitos, caminhões elétricos e a correia elétrica transportadora, que deve reduzir muito as emissões de carbono da operação”, diz o executivo. De acordo com ele, a correia carregará o minério de Mariana até o porto de Vitória, reduzindo os impactos ambientais do transporte rodoviário, como diesel e poeira.
O “pellet feed” também é o principal produto da operação do Sistema Minas-Rio, da Anglo American, que conecta via mineroduto as minas localizadas em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas até o terminal do Porto do Açu, em São João da Barra (RJ). Em 2025, foram 24,8 milhões de toneladas produzidas, com teor médio entre 67% e 68% de ferro. “Hoje o minério de ferro premium ocupa um papel estratégico no mercado global, contribuindo para a descarbonização da cadeia do aço e para o avanço da transição energética”, diz Ana Cunha, diretora de assuntos corporativos e sustentabilidade da Anglo American.
Com foco na produção de pellet feed e do HBI (ferro briquetado a quente, na sigla em inglês), o projeto Ferro Verde, da mineradora inglesa Brazil Iron em parceria com a Companhia Baiana de Produção Mineral (CBPM), prevê investimento de US$ 5,7 bilhões em produção integrada, da lavra até os produtos finais. O projeto está previsto para ser uma operação carbono zero, 100% suprida por fontes renováveis e hidrogênio verde. “O caráter ‘greenfield’ do empreendimento permitirá adotar premissas modernas de engenharia desde o início. Ao utilizar eletricidade de baixo carbono no processo, posicionamos a Bahia como um dos locais mais estratégicos do mundo para a produção de ferro verde e HBI”, diz Emerson Souza, vice-presidente de relações institucionais da Brazil Iron.
O setor se coloca como agente da transição energética. Mas há distância entre discurso e prática” — A. Cardoso
Questões ambientais e as relações com a comunidade, contudo, são um ponto sensível do projeto, situado nos municípios de Piatã, Abaíra e Jussiape, na Chapada Diamantina. A região abriga um parque nacional e é considerada a caixa d’água da Bahia, concentrando três das maiores bacias hidrográficas, além de abrigar comunidades tradicionais. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) prevê 17 projetos ESG para gerenciar e mitigar danos, incluindo a formação de comissões de acompanhamento dos empreendimentos em Piatã e Abaíra – formadas por membros da sociedade civil local e do poder público local – além do monitoramento contínuo de fauna, flora e recursos hídricos, e estímulo à contratação de fornecedores regionais. “O acompanhamento das variáveis socioambientais já acontece e continuará sendo rigoroso”, diz Souza.
À medida em que o Brasil se posiciona como um exportador de recursos minerais estratégicos, organizações da sociedade civil alertam para o uso do discurso socioambiental como escudo para impulsionar flexibilizações na regulação e conceder mais benefícios fiscais às mineradoras. Em nota técnica publicada no fim de abril, o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) alerta sobre esses pontos no PL 2780/2024, que tramita na Câmara e propõe o marco regulatório sobre os minerais críticos.
Segundo a nota, existe um movimento político das grandes mineradoras para ampliar suas vantagens comparativas e seu lucro, subvertendo o discurso climático em benefício próprio. “O setor se coloca como agente da transição energética e de boas práticas, o que torna seus projetos elegíveis em linhas de financiamento ESG. Mas há uma distância entre discurso e prática”, diz Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc.






