A transição climática brasileira deve demandar entre R$ 1 trilhão e R$ 1,2 trilhão em investimentos até 2030, mas o principal gargalo para mobilizar esses recursos vai além da disponibilidade de capital. Estudo da consultoria Bain indica que o Brasil recebeu cerca de 3% do capital climático global nos últimos anos — e a maior parte foi direcionada a setores já consolidados.
Segundo o levantamento, chamado “Financiamento das Soluções Climáticas no Brasil”, aproximadamente 80% desses recursos foram aplicados em projetos de energia renovável, enquanto soluções emergentes, que envolvem maior risco tecnológico e de estruturação, continuam com dificuldade de acessar financiamento comercial.
De acordo com Daniela Carbinato, líder de Sustentabilidade da Bain, a concentração de investimentos no setor energético está ligada à maturidade dessas tecnologias. “A energia renovável concentra recursos porque é hoje a tese climática mais madura do ponto de vista econômico e financeiro do Brasil. Tecnologias como solar e eólica onshore já atingiram um estágio avançado de competitividade, com custos reduzidos, desempenho comprovado e ampla experiência de implementação”, afirma Carbinato.
Especificamente no segmento de fontes solar e eólica, o processo de consolidação ocorreu ao longo das últimas duas décadas. No estudo, a Bain toma estes negócios como exemplo para explicar os fatores que permitiram e influenciaram sua ascensão. O setor de energia renovável no Brasil passou por todas as etapas clássicas de maturação: desenvolvimento tecnológico, definição regulatória, estruturação de cadeias produtivas, criação de mecanismos de contratação de longo prazo e formação de um mercado líquido. Segundo eles, esse ambiente reduziu incertezas e tornou os projetos “financiáveis” em larga escala.
A demanda, contudo, também foi influenciada por políticas públicas, como leilões, contratos de longo prazo e marcos regulatórios claros, que criaram previsibilidade para investidores. “Esse ambiente institucional permitiu que o setor privado investisse com confiança, acelerando a escala e reduzindo custos”, afirma Carbinato.
Esse padrão não é exclusivo do Brasil. “Em praticamente todas as geografias, o capital climático privado se concentra em soluções já consolidadas, como energia renovável e eletrificação”, diz a executiva. Segundo eles, isso ocorre porque o capital comercial tende a priorizar setores com histórico comprovado, menor risco tecnológico e regulatório e modelos de negócio bem estabelecidos.
A experiência brasileira com energias renováveis também ilustra o papel relevante dos primeiros investimentos na criação de novos mercados. “Os projetos pioneiros desempenham um papel catalítico. Ao serem financiados em um momento em que a tecnologia ainda é cara ou pouco conhecida, eles permitem aprendizado prático, ajustes tecnológicos e regulatórios, bem como ganhos de eficiência”, afirma Carbinato.
O potencial de investimento em setores como investimentos globais em biodiversidade, uso da terra e ecossistemas marinhos para alinhar os sistemas econômicos a uma trajetória compatível com o limite de aquecimento de 1,5 °C, por exemplo, é estimado em cerca de US$ 305 bilhões por ano em entre 2024 e 2030. Atualmente, o volume investido gira em torno de US$ 52 bilhões anuais.
Para a consultoria, o capital concessional terá papel central na redução desse hiato, uma vez que seu papel é reduzir riscos, viabilizar projetos iniciais e criar as condições para que o capital privado possa entrar em escala. O sucesso da transição climática brasileira , aponta o documento, dependerá menos da disponibilidade total de recursos e mais da capacidade de utilizá-los de forma estratégica para reduzir riscos, amadurecer mercados e atrair investimento privado em larga escala.
A consultoria também detalha no relatório que esses primeiros projetos viabilizam a formação de cadeias produtivas locais — fornecedores, serviços, logística, mão de obra especializada — e criam referências reais de custo e desempenho. Com isso, o risco percebido diminui e os projetos seguintes passam a ser financiados de forma muito mais natural pelo capital privado, reiteram os executivos.
Apesar de o país ter uma matriz elétrica com até 88% de fontes renováveis, outras frentes estratégicas da descarbonização ainda enfrentam dificuldades para atrair investimentos. Tecnologias como hidrogênio de baixa emissão, combustíveis sustentáveis, descarbonização industrial, cadeias agroindustriais de baixo carbono e restauração ecológica apresentam uma equação de risco e retorno considerada menos atraente para investidores e, portanto, têm mais dificuldade em acessar capital para desenvolvimento e crescimento.
Segundo a Bain, muitas dessas soluções ainda não atingiram paridade de custo com alternativas convencionais e enfrentam incertezas regulatórias, ausência de mercados organizados e cadeias de suprimento incipientes. “Projetos como hidrogênio de baixa emissão, combustíveis sustentáveis, agropecuária de baixo carbono e restauração ecológica ainda não alcançaram maturidade simultânea em pilares fundamentais: tecnologia, regulação, cadeia de valor e mercado com demanda previsível”, afirma Carbinato.
Além disso, há dificuldades operacionais e de mensuração de resultados climáticos. “Do ponto de vista de risco, há elevada incerteza regulatória, ausência de mercados organizados e dificuldade de mensuração de resultados”, diz a sócia.
Nesse cenário, o estudo destaca o papel do capital concessional como instrumento central para viabilizar a transição. Esse tipo de financiamento, geralmente associado a recursos públicos ou multilaterais, assume parte dos riscos iniciais e permite que novos mercados se desenvolvam. O relatório da Bain cita que alguns estudos apontam que a cada dólar de capital concessional pode mobilizar até cinco dólares de capital privado. Mesmo assim, esse tipo de recurso representou apenas cerca de 10% do financiamento climático global entre 2018 e 2023.
Entre os instrumentos financeiros que vêm sendo usados para apoiar o financiamento da transição climática no Brasil, o blended finance, ou arquitetura híbrida, que combina recursos públicos nacionais, fundos climáticos internacionais, bancos multilaterais e capital privado, é um dos mais desenvolvidos e promissores.
No plano doméstico, o Fundo Clima, operado pelo BNDES, é um dos principais instrumentos de financiamento para mitigação e adaptação. O banco também tem atuado como investidor âncora em fundos voltados à transição energética e à descarbonização.
No plano internacional, recursos concessionais chegam principalmente por meio de fundos climáticos multilaterais, como o Green Climate Fund (GCF) e os Climate Investment Funds (CIF). O Programa País do GCF prevê um potencial de captação de cerca de US$ 1 bilhão, com estimativa de mobilização adicional de aproximadamente US$ 3,8 bilhões em cofinanciamento.
Entre as iniciativas em estruturação está um fundo de transformação climática e ecológica desenvolvido pelo governo federal em parceria com o GCF e o BNDES, com cerca de US$ 400 milhões iniciais e potencial de mobilizar cerca de US$ 1,5 bilhão em investimentos a partir de 2026, voltados à descarbonização industrial.
O capital privado, porém, é vital para o desenvolvimento de soluções no tema. “Os bancos de desenvolvimento multilaterais e as instituições financeiras de desenvolvimento têm um papel absolutamente central, mas não como financiadores exclusivos da transição”, afirma Silvio Marote, líder de Serviços Financeiros da Bain. Para ele o volume de capital necessário excede a capacidade dessas instituições. Sua função principal é reduzir riscos, custo de capital e catalisar a entrada do investimento privado, aponta.
Segundo os executivos da Bain, essas instituições atuam como estruturadoras de mercado, padronizando instrumentos financeiros e apoiando projetos pioneiros. Ao assumir riscos iniciais, ajudam a viabilizar soluções que ainda não têm uma relação risco–retorno tão atrativa para o capital comercial.
Para ampliar a participação do capital privado nesse tipo de projeto, a consultoria destaca a necessidade de avanços regulatórios e institucionais. “Ampliar a participação do capital privado na descarbonização da economia requer tornar os projetos efetivamente financiáveis. Isso passa por planos de transição sólidos, maior clareza regulatória, taxonomias verdes, regras de certificação e mercados regulados, como o mercado de carbono”, afirma Marote.
Instrumentos como garantias, estruturas de blended finance e contratos de longo prazo ajudam a assegurar demanda e, portanto, são fundamentais para reduzir incertezas e tornar os projetos mais atrativos. Contudo, outros instrumentos financeiros começam a ser necessários para endereçar desafios de áreas específicas.
Instrumentos financeiros
Os instrumentos tradicionais de financiamento, isoladamente, não são suficientes para lidar com a complexidade da transição climática. Segundo o sócio da Bain, Silvio Marote, as soluções climáticas apresentam níveis muito diferentes de maturidade tecnológica, econômica e institucional, o que exige instrumentos financeiros ajustados a cada contexto.
“As soluções climáticas partem de níveis muito distintos de maturidade tecnológica, econômica e institucional, e isso exige instrumentos financeiros calibrados de forma diferente para cada contexto. Não existe uma bala de prata para todos os casos”, reitera Marote.
Em áreas nas quais as rotas tecnológicas ainda são incertas — como agricultura e pecuária sustentáveis ou tecnologias para reduzir emissões da fermentação entérica — o principal desafio é viabilizar aprendizado e experimentação. Nesse estágio, ganham importância subvenções, grants para pesquisa e desenvolvimento, instrumentos de fomento, além de se seguros e garantias que ajudem a absorver riscos e permitam testar soluções em ambiente real.
Para tecnologias emergentes com maior potencial de escala, como hidrogênio verde, aço e cimento de baixa emissão, combustíveis sintéticos e armazenamento de energia, o financiamento tende a combinar capital privado com instrumentos catalíticos. “É necessário recorrer a equity e dívida catalíticos, com participação relevante de capital concessional, capazes de absorver riscos específicos, reduzir o custo de capital e viabilizar projetos pioneiros”, explica Marote. Ao mesmo tempo, políticas públicas e instrumentos regulatórios capazes de criar demanda previsível tornam-se tão importantes quanto o financiamento em si.
Inovações – Em cadeias produtivas nascentes ou mercados ainda em formação, os desafios mudam de natureza. Em segmentos como biometano, fertilizantes sustentáveis ou etanol de segunda geração, a tecnologia já existe, mas as cadeias produtivas ainda precisam ganhar eficiência e escala. Já em áreas como o reflorestamento ecológico, a principal dificuldade está na previsibilidade de receita, muitas vezes dependente de mercados de carbono ainda incipientes. Nesse cenário, o desafio é “desenhar e combinar instrumentos financeiros de forma intencional, alinhando capital concessional, capital privado e políticas públicas conforme o estágio de maturidade de cada solução”, diz o executivo.
Os desafios são ainda maiores no caso, por exemplo, das soluções baseadas na natureza. De acordo com a Bain, a principal dificuldade está em mensurar e monetizar os serviços ecossistêmicos gerados por esses projetos, como biodiversidade, regulação hídrica e resiliência climática. “Muitos desses benefícios são tratados como externalidades positivas e ficam fora dos modelos econômicos tradicionais, o que aumenta a percepção de risco para o capital privado”, comenta Carbinato.






