O cenário regulatório do futebol mundial está prestes a enfrentar uma de suas maiores transformações das últimas décadas. Em reunião realizada em Vancouver, o Conselho da FIFA aprovou por unanimidade o início de um processo de consulta para uma proposta audaciosa: a obrigatoriedade de que todas as equipes profissionais mantenham, durante os 90 minutos, pelo menos um jogador formado nas categorias de base (Sub-20 ou Sub-21) em campo.
A medida vai muito além das atuais “cotas de inscrição” utilizadas pela UEFA em competições europeias ou pela Premier League. Enquanto as regras vigentes exigem apenas que um número determinado de jogadores “Home Grown” conste na lista de inscritos, a nova diretriz da FIFA foca na minutagem efetiva. Na prática, se o jovem escolhido para iniciar a partida for substituído, o treinador seria obrigado a lançar outro atleta com o mesmo status de formação.
Fontes e Bases do Projeto
A notícia, que ecoou globalmente, foi detalhada inicialmente pelo portal Inside World Football e noticiada por agências de como a Associated Press (AP). Segundo os relatos, o critério para definir o “jogador formado no clube” deve seguir o padrão atual da entidade: atletas que tenham treinado no clube por pelo menos três temporadas completas entre os 15 e 21 anos.
O projeto agora entra em uma fase crucial de 12 meses de consulta. Durante este período, a FIFA ouvirá os principais stakeholders do esporte, incluindo a FIFPRO (Sindicato Mundial de Jogadores), a Associação Mundial de Ligas e a ECA (Associação Europeia de Clubes). O objetivo é avaliar os impactos jurídicos nos contratos de trabalho e a viabilidade técnica em ligas de diferentes níveis financeiros.
Impacto no Direito Desportivo e Compliance
Para especialistas em governança, a proposta é uma resposta direta ao crescente distanciamento entre as academias de base e os times principais, muitas vezes utilizados apenas como ativos financeiros para vendas precoces. Se implementada, a regra exigirá uma reformulação nos departamentos de compliance e planejamento técnico dos clubes, que precisarão garantir uma “linha de produção” constante para evitar sanções disciplinares ou a perda de pontos por descumprimento regulatório.
Segundo o colunista do Lei em Campo Andrei Kampff e especialista em conformidade no esporte “o futebol deixa de apenas incentivar a formação, e passa a impor a utilização. Se aprovada, dentro da autonomia regulatória do esporte, será uma das intervenções mais profundas já feitas na lógica competitiva do esporte.”
A expectativa é que, após o ciclo de debates, o texto final seja submetido à votação definitiva no Conselho da FIFA em 2027. Se aprovada, a norma poderá reequilibrar o mercado global, valorizando clubes formadores e alterando a dinâmica de transferências internacionais.






